r7 -30/06/2023 15:04
Por 5 votos a 2, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) decidiu
tornar o ex-presidente
Jair Bolsonaro (PL) inelegível por abuso de poder político em reunião
com embaixadores estrangeiros meses antes da eleição. Na prática, Bolsonaro
está inelegível até 2030.
Os ministros que votaram para condenar o ex-presidente
foram: Benedito Gonçalves, Floriano Marques, André Tavares, Cármen Lúcia e
Alexandre de Moraes, que é o presidente da Corte e, portanto, último a declarar
o voto. Já os ministros Raul Araújo e Nunes Marques divergiram da
maioria.
"A resposta que a Justiça Eleitoral dará a essa questão
confirmará nossa fé na democracia, no Estado de Direito, porque diferentemente
do que se pretendeu divulgar nos últimos dias, principalmente pelas redes
sociais, o tse em nada está inovando", disse Moraes, no voto.
O presidente da Corte também declarou que "nenhum
candidato e especialmente o investigado nessa ação, Jair Bolsonaro, poderia
alegar desconhecimento sobre posicionamento desta corte eleitoral das
principais premissas que deveriam ser observadas para as eleições de
2022".
Moraes lembrou de falas de Bolsonaro e as classificou como
"mentiras" durante a reunião e destacou o uso da máquina pública para
divulgação de fake news. "Toda a produção foi feita para que a TV Brasil
divulgasse e a máquina existente de desinformação multiplicasse a desinformação
para chegar ao eleitorado".
Direitos cassados
Com o resultado, Bolsonaro
se torna o segundo ocupante do Palácio do Planalto a ter os direitos políticos
cassados desde a redemocratização, em 1985. Antes dele, apenas
Fernando Collor de Mello, o primeiro presidente eleito por voto direto após o
fim da ditadura militar, foi declarado inelegível pelo Tribunal Superior
Eleitoral (TSE).
A ação apura a conduta de Bolsonaro durante a reunião com
embaixadores no Palácio da Alvorada, em julho do ano passado. Na ocasião, o
ex-presidente levantou suspeitas sobre as urnas eletrônicas, sem apresentar
provas, e atacou o sistema eleitoral brasileiro.
Julgamento
Na última terça (27), a sessão começou com o voto do
relator, ministro Benedito Gonçalves, que votou para tornar o ex-presidente
inelegível por oito anos.
Para Benedito Gonçalves, está configurado abuso de poder
político no uso do cargo de presidente por Jair Bolsonaro. Segundo o ministro,
houve desvio de finalidade no uso do "poder simbólico do presidente e da
posição do chefe de Estado" para "degradar o ambiente
eleitoral".
Já o ministro Floriano Marques identificou quatro linhas que
classificariam o discurso de Bolsonaro como eleitoreiro: autopromoção,
argumentação negativa aos adversários, martirização e desqualificação do
sistema eleitoral.
O ministro defendeu a responsabilidade exclusiva do
ex-presidente pela reunião com embaixadores e lembrou de depoimentos de
testemunhas da defesa, como Carlos França, ex-ministro das Relações Exteriores
do Brasil.
Segundo o ministro André Tavares, Bolsonaro questionou o
sistema eleitoral brasileiro por, pelo menos, 23 vezes, somente em 2021. O
ministro considerou que é inviável a Justiça Eleitoral ignorar os fatos.
"É possível constatar ataques infundados que se escoraram em boatos",
disse o ministro.
"Não há apenas a mera falta de rigor em certas
proclamações, mas a inequívoca falsidade perpetrada nesse ato comunicacional,
com invenções, distorções severas da realidade, dos fatos e dos dados empíricos
e técnicos, chegando ainda a caracterizar uma narrativa delirante, com efeitos
nefastos na democracia, no processo eleitoral, na crença popular em
conspirações acerca do sistema de apuração dos votos, afirmou.
Foi com o voto
de Cármen Lúcia que a Corte formou maioria. Ela rebateu a alegação de
que não compete ao TSE julgar o assunto. "A Justiça Eleitoral é competente
por determinação constitucional e legal, porque estamos aqui a tratar de uma ocorrência
comprovada e não contestada que teria de alguma forma tisnado a normalidade e
legitimidade do pleito eleitoral", disse ela sobre a análise da reunião
com os embaixadores que originou o processo apresentado pelo PDT.
Dois ministros divergiram da maioria
O ministro
Nunes Marques votou nesta sexta-feira (30) contra tornar o
ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) inelegível. Defendendo a integridade do
sistema eletrônico de votação, no voto, Nunes considerou "que a atuação de
Jair Messias Bolsonaro no evento sob investigação não se voltou a obter
vantagem sobre os demais contendores do pleito presidencial de 2022, tampouco faz
parte de tentativa concreta de desacreditar o resultado da eleição".
No dia anterior, Raul
Araújo foi o primeiro a votar contra a inelegibilidade. O ministro
defendeu a liberdade de expressão e a possibilidade de questionamentos. Segundo
ele, "são incontroversas a reunião e o conteúdo"; ele afirmou que, na
reunião com embaixadores, foram apresentados "fatos sabidamente
inverídicos e que já foram desmentidos".
Advogados do ex-presidente já afirmaram que vão recorrer,
mas é preciso esperar a liberação do chamado acórdão, ou seja, os detalhes da
decisão colegiada da Corte Eleitoral.