moises eustaquio -14/10/2026 13:33
Há coisas que a cidade exibe sem explicação. Estão lá, bem diante dos nossos olhos, mas parecem guardar histórias que ninguém conhece. Um bom exemplo são aqueles pares de tênis pendurados nos fios da rede elétrica, balançando ao sabor do vento, como se tivessem decidido abandonar o chão e conquistar um lugar no céu.
Quem nunca olhou para um par de tênis pendurado nos fios e
se perguntou: quem foi o responsável por essa façanha? E, principalmente, por
quê?
As teorias são muitas. Há quem diga que se trata de uma
brincadeira de adolescentes, uma espécie de troféu conquistado depois de uma
noite de diversão. Outros associam o gesto a desafios entre amigos, despedidas
de uma fase da vida ou até a uma maneira curiosa de marcar território. Existem
também interpretações mais sombrias, ligadas a pontos de venda de drogas ou a
códigos secretos de determinadas comunidades, embora não haja comprovação de
que essa seja a explicação para cada caso.
Mas, deixando de lado as especulações, o que realmente chama
a atenção é a cena. Um par de tênis, que já percorreu calçadas, ruas, escolas,
campos de futebol e talvez até quilômetros de aventuras, agora repousa sobre os
fios, longe dos pés que um dia o calçaram.
É quase uma metáfora da própria vida. Quantas vezes
abandonamos pelo caminho coisas que já foram importantes? Quantos sonhos ficam
suspensos, quantos planos deixam de caminhar e quantas histórias terminam sem
que ninguém saiba exatamente o motivo?
Enquanto isso, os tênis continuam lá. Resistindo à chuva, ao
sol e às ventanias, transformados em uma espécie de escultura urbana
improvisada, sem artista, sem placa de identificação e, muito menos,
autorização para exposição pública.
Talvez o autor dessa obra nem imagine que provocou tantas
reflexões. Talvez tenha simplesmente acertado o lançamento e seguido seu
caminho, sem olhar para trás.
E a cidade, apressada como sempre, segue sua rotina. Os
carros passam, as pessoas caminham, os problemas se acumulam e os tênis
permanecem suspensos, como se observassem tudo de uma posição privilegiada.
No fim das contas, fica uma pergunta que talvez nunca tenha
resposta: será que alguém sente falta daquele par de tênis ou ele já cumpriu
sua missão e agora virou parte da paisagem?
Afinal, em uma cidade onde quase tudo precisa de explicação,
há mistérios que preferem ficar pendurados por aí.