cnn -12/08/2026 11:48
A decisão do ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo
Tribunal Federal), que autorizou buscas contra o ex-secretário de Segurança Pública do
Maranhão Raimundo Cutrim, apontado como fonte do jornalista Luís Pablo,
levantou questionamentos entre especialistas sobre os limites da atuação do
Estado diante da garantia constitucional do sigilo da fonte.
Houve ponderações e críticas devido ao impacto que a medida
tem na atividade jornalística. Os especialistas acrescentaram que as fontes
podem se sentir intimidadas e desencorajadas a repassar informações porque a
Justiça desrespeita um preceito previsto na Constituição.
O caso envolve reportagens publicadas por Luís Pablo sobre o
suposto uso de veículos oficiais do TJ-MA (Tribunal de Justiça do Maranhão)
pela família do ministro Flávio Dino, também integrante do STF. A medida contra
Cutrim foi solicitada pela PF (Polícia Federal) e recebeu aval da PGR
(Procuradoria-Geral da República).
O jornalista já havia sido alvo de uma operação em março,
quando Moraes autorizou a apreensão de celulares e computador na residência
dele. Na ocasião, o ministro apontou a existência de indícios do crime de
perseguição e mencionou que as publicações poderiam ter permitido a
identificação de informações relacionadas à segurança de autoridades.
O STF posteriormente esclareceu que a investigação contra
Luís Pablo não tinha como objeto crimes contra a honra ou a liberdade de
expressão. Segundo a Corte, a apuração buscava esclarecer um suposto
monitoramento ilegal da segurança de Flávio Dino em São Luís. Apesar disso, a
decisão de março fez referência ao chamado inquérito das fake news, o que
provocou questionamentos de entidades ligadas à imprensa.
Sigilo da fonte
Para a advogada constitucionalista Vera Chemin, ouvida
pela CNN Brasil, o sigilo da fonte é uma garantia essencial para o exercício do
jornalismo. Ela afirmou que a proteção está prevista no artigo 5º,
inciso XIV, da Constituição e não poderia ser afastada simplesmente para
verificar posteriormente se houve alguma irregularidade.
Na avaliação da especialista, a identificação de uma fonte a
partir de informações obtidas em equipamentos apreendidos de um jornalista pode
representar uma forma indireta de contornar a proteção constitucional. Para
ela, esse tipo de procedimento pode produzir um efeito de intimidação sobre
profissionais e potenciais informantes.
Vera Chemin ressaltou que a violação do sigilo da fonte só
seria admissível em situações excepcionais, como casos que envolvam segredo de
justiça ou segurança nacional, e desde que existam "indícios fortíssimos
de autoria e de materialidade do crime". Segundo ela, "não se pode
violar o sigilo para depois verificar se houve um crime ou não".
A professora da FGV-Easp, Ligia Maura Costa, afirmou que
a imprensa livre depende da existência de fontes protegidas, especialmente em
investigações jornalísticas envolvendo denúncias de interesse público.
Costa declarou que, caso a identificação de Cutrim tenha
ocorrido a partir da análise de dados dos equipamentos apreendidos com Luís
Pablo, o Estado teria alcançado indiretamente uma informação que a Constituição
procura proteger: a identidade da fonte jornalística.
"Se eu não tiver sigilo de fonte, ninguém vai relatar,
ninguém vai reportar à imprensa", afirmou Costa.
Ela ressaltou, porém, que a análise jurídica completa
depende do conteúdo dos autos, que permanecem sob sigilo. Ela também ponderou
que eventuais ilícitos cometidos pelo jornalista ou pela fonte devem ser
analisados separadamente.
Entidades veem risco à liberdade de imprensa
A discussão também provocou manifestações de entidades do
setor. Em nota conjunta, a ABERT (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e
Televisão), a ANER (Associação Nacional de Editores de Revistas) e a ANJ
(Associação Nacional de Jornais) afirmam que a medida é "preocupante" e pode atingir a
garantia constitucional do sigilo da fonte.
As entidades destacam que a proteção ao sigilo da fonte é
assegurada pela Constituição e deve ser respeitada independentemente do veículo
de comunicação ou de sua linha editorial. Segundo as associações,
"qualquer medida que eventualmente viole essa garantia representa um
ataque ao livre exercício do jornalismo".