metropoles -18/12/2025 00:41
O Senado aprovou, nesta quarta-feira (17/12), o Projeto de
Lei da Dosimetria,
que reduz penas para pessoas condenadas pelos atos do 8 de Janeiro e para o
ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), condenado por tentativa de golpe de Estado
pelo Supremo Tribunal Federal (STF). O projeto agora segue para a análise do
presidente Luiz
Inácio Lula da Silva (PT), que deverá vetá-lo.
Por 48 votos a favor e 25 contrários, o governo sofreu o
segundo revés do dia a respeito da dosimetria. Mais cedo, a Comissão de
Constituição e Justiça (CCJ) aprovou o
parecer do relator Espiridião Amin (PP-SC) por 17 votos a 7. O desfalque se deu
após o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), ter feito um acordo
para votar o projeto sem consultar a base e o Planalto.
O combinado implicava que a votação do projeto se daria
nesta quarta-feira tanto na CCJ quanto no plenário, como havia sido estipulado
pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União
Brasil-AP). Em troca, seria pautado o Projeto de Lei Complementar (PLP) nº
128/2025, que estabelece cortes em benefícios fiscais, um projeto prioritário
para o governo fechar as contas no ano eleitoral de 2026.
O acordo irritou líderes de partidos como o MDB e o PSD, que
criticaram os termos e abandonaram a votação na CCJ. O ex-presidente do Senado,
Renan Calheiros (MDB-AL) disse que o acordo é uma “farsa”, enquanto o
presidente da CCJ, Otto Alencar (PSD-BA), chegou a reclamar publicamente da
ausência de líderes do governo na sessão.
Sem saber do acordo, a ministra das Relações Institucionais,
Gleisi Hoffmann, negou que o Planalto tenha chancelado qualquer acordo
envolvendo a dosimetria. “Quem atentou contra a democracia tem de pagar por
seus crimes e, além disso, o projeto aprovado na Câmara beneficia condenados
por vários outros crimes”, disse a ministra.
A base do governo também tentou que o relatório de Amin
retornasse à Câmara. O senador catarinenese fez uma única mudança no texto
aprovado pelos deputados há uma semana, acolhendo uma emenda de Sérgio Moro
(União Brasil-PR), para limitar a dosimetria a crimes cometidos no contexto do
8 de Janeiro. A mudança se deu depois de críticas ao relatório do deputado
Paulinho da Força (Solidariedade-SP), que poderia abrir brecha para atingir
condenados por diversos outros crimes.
O relator sustentou que se tratava de uma emenda de redação,
ou seja, que não alterava o mérito do parecer chancelado pelos deputados e que,
assim, poderia ir direto para a sanção presidencial. O presidente da CCJ chegou
a determinar que se tratava de uma emenda de mérito, mas foi derrotado pela
oposição, que manteve se tratar de uma emenda redacional.
Derrota para o governo, vitória para Alcolumbre
A votação representa uma demonstração de força do presidente
do Senado. Antes mesmo da votação na Câmara, Alcolumbre se comprometeu
publicamente com a votação e defendeu a “modernização” da legislação que trata
de crimes contra instituições democráticas.
Primeiro, quis que o projeto fosse deliberado direto no
plenário, mas acabou enviando-o para a CCJ após ser pressionado. Assim, o
presidente estipulou uma tramitação de uma semana para a dosimetria.
A relação entre Lula e Davi Alcolumbre está tensa desde
que o presidente decidiu indicar o advogado-geral da União, Jorge Messias, para
o STF, e não Rodrigo Pacheco (PSD-MG), como era pleiteado pelo atual presidente
do Senado.
O acordo feito por Jaques Wagner para viabilizar a votação
nesta quarta é visto como um aceno para Alcolumbre, que rompeu com o senador
baiano diante da indicação de Messias.
O que diz o projeto
O substitutivo do Projeto de Lei (PL) nº 2.162/2023
estabelece que, em condenações por mais de um dos crimes contra Instituições
Democráticas listados no Código Penal, deverá permanecer a pena mais severa,
não podendo mais haver a cumulatividade de tempo de reclusão.
Também determina que a pena poderá reduzir em dois terços se
os crimes forem cometidos em contexto de multidão — desde que o condenado não
tenha excercido papel de liderança ou de financiador.
A dosimetria estabelece que condenados por crimes contra o
Estado Democrático de Direito, mesmo em casos de reincidência, terão direito à
progressão de regime se tiverem cumprido ao menos um sexto da pena.
Assim, o projeto poderá reduzir, segundo números estipulados
na Câmara, a pena de Bolsonaro em regime fechado a cerca de 3 anos. O ex-presidente
foi condenado a 27 anos e 3 meses de prisão.