metropoles -06/06/2024 06:46
Ao determinar que o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) responsabilize entidades
envolvidas na farra
dos descontos indevidos em aposentadorias e promova a devolução do
dinheiro aos aposentados,
ministros do Tribunal de Contas da União (TCU) criticaram de forma dura as
filiações fraudulentas feitas por associações e a falta de fiscalização do
órgão da Previdência.
Nessa quarta-feira (5/6), o TCU julgou um relatório de
auditoria sobre a suspeita de descontos fraudulentos das entidades. O relator
do caso, ministro Aroldo Cedraz (foto em destaque), afirmou que foi
constatada a dificuldade dos segurados de obter ressarcimento de valores
indevidos, sua consequente perda do poder de compra, e o “favorecimento ao
enriquecimento ilícito de entidades associativas inidôneas”.
Cedraz pôs em xeque, inclusive, se o INSS conseguiria
fiscalizar e punir essas entidades. “Observo que os próprios acordos de
cooperação técnica já previam essa possibilidade de penalidade, não havendo
notícias sobre a sua aplicabilidade, o que leva à dúvida de que a autarquia,
efetivamente, implementará a avaliação periódica e à eventual aplicação de penalidades,
a fim de inibir práticas irregulares pelas entidades associativas”, disse.
O relator ainda afirmou que é “injustificável a não
utilização da faculdade de revisão dos acordos de cooperação técnica nos casos
mais escabrosos, a exemplo da Ambec e da Sindnapi”. E reforçou que caso não
haja revisão acurada de filiações e investigação, poderá haver
responsabilização de gestores do INSS.
Ao fim da leitura de seu voto, o presidente do TCU, Bruno
Dantas, afirmou que “os achados da equipe da auditoria são de arrepiar”. “Foi
identificado um quadro de total descontrole das autorizações, de aposentados do
INSS, de descontos associativos na folha de pagamento, o que é gravíssimo”,
disse.
Bruno Dantas enfatizou que as vítimas de “fraudes” nos
descontos de mensalidade, na maioria das vezes, são aposentados que recebem um
salário mínimo de benefício e trabalhadores rurais.
Na investigação e no voto do relator do caso foram citadas
reportagens do Metrópoles que revelaram que entidades envolvidas na
farra aumentaram seu faturamento mensal de R$ 85 milhões para R$ 250 milhões
somente entre 2023 e 2024, em meio a uma enxurrada de acusações de fraudes.
Como o Metrópoles revelou em março, 29
entidades arrecadaram, ao todo, R$ 2 bilhões com descontos de mensalidade
associativa de aposentados no último ano, por meio de acordos de cooperação
técnica firmados com o INSS. Os valores correspondem a um percentual fixo dos
benefícios e são descontados em troca de supostas vantagens, como planos de
saúde, seguros e remédios mais baratos.
Ocorre que milhares de aposentados que tiveram descontos em
seus benefícios nunca ouviram falar sobre as entidades que pegam o dinheiro da
mensalidade direto da folha de pagamento, antes da aposentadoria ser depositada
na conta do segurado. Há mais de 60 mil processos em todo o país contra essas
entidades. Como mostrou o Metrópoles, há casos de associações em nome de
laranjas ligados a empresas que oferecem os planos de seguro.