metropoles -12/07/2026 10:39
O Brasil pode enfrentar, nos próximos meses, um dos episódios de El Niño mais intensos já registrados no século. Segundo o Centro de Previsão Climática (CPC), da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), há 81% de probabilidade de o fenômeno atingir a categoria de “muito forte” entre outubro e dezembro, colocando o evento entre os mais intensos observados desde 1950.
Além das previsões dos modelos climáticos, os
meteorologistas identificaram um forte acoplamento entre a atmosfera e o Oceano
Pacífico, aumentando as chances de que o El Niño permaneça ativo até o início
de 2027.
No Brasil, os efeitos já começam a aparecer e devem se
intensificar ao longo do segundo semestre. A expectativa é de um país dividido
entre excesso de chuva no Centro-Sul e calor intenso, seca e queimadas no
Centro-Norte.
Especialistas consultados pelo Metrópoles alertam,
porém, que este poderá ser um evento diferente dos anteriores. Com
os oceanos do planeta mais quentes do que no passado, a atmosfera ganha mais
energia e umidade, favorecendo a ocorrência de fenômenos extremos.
“Pode ser um El Niño histórico, em um nível de intensidade
nunca registrado. Mais temperatura significa mais energia na atmosfera, o que
aumenta tanto o risco de secas e ondas de calor recordes quanto de chuvas
intensas, enchentes, alagamentos e tempestades severas. Nunca trabalhamos com
um El Niño da intensidade que os modelos estão indicando”, afirma a
meteorologista da MetSul, Estael Sias.
Sul pode enfrentar enchentes e tempestades severas
A principal preocupação está concentrada na Região Sul. A
previsão é de chuva acima da média durante os próximos meses, especialmente no
Paraná, em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul. O excesso de precipitação
aumenta o risco de enchentes, inundações, deslizamentos e alagamentos.
Segundo Estael, a primavera deve trazer uma frequência maior
de tempestades severas, acompanhadas de vendavais e granizo. Também cresce a
possibilidade de ocorrência de fenômenos mais raros, como microexplosões
atmosféricas e tornados, principalmente no Rio Grande do Sul, Santa Catarina,
Paraná, Mato Grosso do Sul e na metade sul de São Paulo.
O primeiro boletim oficial sobre o El Niño 2026/2027,
elaborado por órgãos como Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe),
Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), Centro Nacional de Monitoramento e
Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), Agência Nacional de Águas (ANA) e
Defesa Civil Nacional, também aponta que o aumento da umidade do solo poderá
deixar a região mais vulnerável a enchentes caso ocorram episódios de chuva
intensa durante a primavera.
Segundo Estael Sias, o cenário clássico do El Niño costuma provocar seus maiores impactos no Sul entre o fim do inverno e a primavera do primeiro ano do fenômeno e, posteriormente, no outono do ano seguinte. Isso significa que novas ondas de chuva intensa também podem ocorrer em 2027.
Agricultura terá ganhos em algumas regiões e perdas em
outras
Os impactos também devem atingir o campo, mas de maneiras
diferentes conforme a região, de acordo com o Painel El Niño 2026-2027, do governo
federal.
No Sul, o aumento das chuvas pode favorecer as culturas de
inverno, embora o excesso de umidade aumente a incidência de doenças causadas
por fungos.
No Centro-Oeste, o cenário tende a beneficiar a colheita do
milho de segunda safra, do algodão e da cana-de-açúcar. Por outro lado, o calor
pode reduzir a umidade do solo, prejudicar as pastagens e dificultar a
preparação da próxima safra.
Já no Sudeste, as chuvas próximas da média devem favorecer
as culturas de inverno e
a colheita do café, desde que as precipitações retornem após o período
seco.
Os maiores desafios ficam para o Norte e o Nordeste. Nessas
regiões, a combinação entre pouca chuva e temperaturas elevadas pode provocar
deficiência hídrica, reduzir a produtividade agrícola, afetar culturas
permanentes, prejudicar a agricultura familiar e comprometer a pecuária pela
diminuição das pastagens e da oferta de água.
Defesa Civil pede preparação
Diante das previsões, especialistas defendem que estados e
municípios reforcem os planos de contingência antes da chegada dos meses mais
críticos.
O boletim elaborado por órgãos federais recomenda a revisão
dos planos de emergência, o fortalecimento dos sistemas de monitoramento e
alerta e a preparação das comunidades mais vulneráveis aos eventos extremos.
A orientação para a população é acompanhar os avisos
oficiais da Defesa
Civil e manter o cadastro atualizado para recebimento de alertas