folhapress -04/08/2026 22:17
A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) pode
aprovar mais oito canetas emagrecedoras até o fim de 2026 e aposta no aumento
da concorrência para reduzir preços, ampliar o acesso da população aos
medicamentos e enfraquecer o mercado ilegal.
Das 24 canetas incluídas no edital de priorização publicado
em agosto do ano passado, seis já receberam registro e cinco tiveram os pedidos
negados.
Atualmente, outros 13 pedidos seguem em análise. Um deles
deve ter a avaliação concluída ainda neste mês e, segundo a Anvisa, apresenta
boas perspectivas de aprovação. Outros sete processos, cuja análise começou
neste semestre, devem ser concluídos até dezembro.
Cinco pedidos adicionais ainda aguardam o início da
avaliação e devem entrar na fila nos próximos meses ou no início de 2027.
As informações foram apresentadas pelo diretor-presidente da
Anvisa, Leandro Safatle, e os diretores da agência durante encontro com
jornalistas nesta terça-feira (4).
Para acelerar as análises, a Anvisa adotou um modelo de
avaliação otimizada, no qual equipes técnicas analisam simultaneamente
diferentes pedidos de registro, aumentando a produtividade sem abrir mão do
rigor técnico.
Safatle afirmou que o Brasil possui atualmente o maior
número de canetas emagrecedoras regularizadas entre as principais agências
reguladoras internacionais.
Na avaliação do diretor-presidente, o aumento do número de
fabricantes autorizados deve ampliar a oferta e reduzir os preços.
"Quando você amplia a concorrência, gera novos
entrantes regularizados, com produtos cuja eficácia, segurança e qualidade
foram avaliadas pela Anvisa. Isso tende a reduzir os preços, ampliar o acesso e
ocupar boa parte do espaço hoje explorado pelo mercado irregular",
afirmou.
A regularização também é vista pela agência como uma estratégia
para combater o contrabando e a comercialização de produtos sem registro.
CERCO AO MERCADO ILEGAL
Paralelamente ao aumento da oferta de medicamentos
regularizados, a Anvisa afirma ter reforçado a fiscalização sobre farmácias de
manipulação, distribuidoras e importadores de insumos farmacêuticos ativos
utilizados na produção dessas substâncias.
A principal preocupação, segundo Safatle, são as canetas
emagrecedoras contrabandeadas do Paraguai.
Como a Folha de S. Paulo mostrou, influenciadores, ex-BBBs,
atrizes e cantores brasileiros usaram o Instagram para promover laboratórios
paraguaios e canetas emagrecedoras sem registro na Anvisa. No entanto, não há
nenhum pedido de análise e nem aprovação pela agência reguladora brasileira.
Segundo a agência, muitos desses produtos entram no Brasil
sem qualquer controle sanitário e são transportados em condições inadequadas de
conservação, inclusive escondidos dentro de pneus de veículos, sem
refrigeração.
Além disso, Safatle aponta que há nesse mercado canetas com
concentrações incorretas do princípio ativo ou impurezas capazes de causar
danos graves à saúde. Ele pontuou que há registros de pacientes internados em
unidades de terapia intensiva após utilizarem esses produtos irregulares.
A avaliação da agência é que a forma mais eficaz de reduzir
esse mercado é ampliar a disponibilidade de medicamentos registrados, com
preços mais acessíveis, mantendo ao mesmo tempo operações de fiscalização em
parceria com a Polícia Federal, a Receita Federal e a Polícia Rodoviária
Federal.
ORGÃOS FISCALIZADORES
Segundo Safatle, resoluções recentes publicadas pela Anvisa
também fortaleceram a atuação dos órgãos de fiscalização nas fronteiras,
permitindo ações mais rigorosas contra produtos sem registro.
Como parte dessa estratégia, a Anvisa está em fase final de
negociação para assinar um novo memorando de entendimento com a autoridade
sanitária do Paraguai.
O acordo prevê intercâmbio permanente de informações, dados
e experiências para facilitar a identificação de produtos irregulares e
monitorar os medicamentos comercializados na região de fronteira.
Segundo a agência, a cooperação permitirá identificar com
maior rapidez produtos autorizados apenas no Paraguai, mas não possuem registro
no Brasil, além de medicamentos que sequer foram lançados oficialmente no
mercado internacional, mas já circulam de forma ilegal.
Durante a conversa, a Anvisa divulgou ainda que colocou em
prática um plano com 125 medidas voltadas à redução das filas de análise.
Foi criado um painel de monitoramento em tempo real para
acompanhar diariamente os processos, permitindo ajustes rápidos na gestão das
equipes.
Como resultado, a agência eliminou completamente os passivos
de radiofármacos, produtos para diagnóstico in vitro e equipamentos médicos.
Atualmente, resta apenas a fila de materiais de uso médico e ortopédico entre
os dispositivos médicos.
A fila considerada mais desafiadora é a de medicamentos
sintéticos. Safatle aponta que, antigamente, os produtos podiam ficar retidos
em filas que duravam 3, 5 ou até 10 anos.
META
A meta é praticamente zerar todos os passivos históricos até
dezembro deste ano ou até o primeiro trimestre de 2027, fazendo com que a
agência passe a trabalhar apenas dentro dos prazos legais de análise.
Entre as iniciativas adotadas está a chamada missão
registro, que deslocou cerca de 138 servidores de diferentes áreas para atuar
exclusivamente na análise de processos de registro durante o segundo semestre.
A agência também recebeu reforço de aproximadamente 114
novos servidores aprovados em concurso público. Os novos servidores já ajudaram
nas análises do segundo semestre, o que pode agilizar ainda mais a redução da
fila.
Ainda assim, Safatle afirmou que o quadro continua reduzido,
com cerca de 1.600 servidores. Ele avaliou que o número é pequeno se comparado
a outras agências pelo mundo. Na Coreia do Sul, por exemplo, há
aproximadamente 3.000 funcionários.
Pela primeira vez, segundo a Anvisa, o número de processos
concluídos passou a superar o de novos pedidos protocolados, permitindo uma
redução efetiva do estoque acumulado. A Anvisa, porém, não divulgou qual é o
número de entradas.